Quanto vale uma vida? R$191,54

Uma vida, pelo menos na cidade do Rio de Janeiro, vale R$191,54. É o valor da multa por avanço de sinal vermelho, que nenhum motorista está disposto a, literalmente, pagar para ver, parando no sinal amarelo quando este tem pardal, mas sem a menor preocupação com uma vida que esteja fazendo a travessia, quando não há pardal.

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A equivalência é simples, faça a experiência. Pare num sinal de trânsito com pardal e conte quantos avançam até o fim do dia. Provavelmente, nenhum. Agora, vá para um sinal de trânsito sem pardal e atravesse assim que ocorrer a transição do amarelo para o vermelho. Até o fim do dia, você estará morto, ou, com sorte, quebrado num hospital. Este é o valor da sua vida. Por R$191,54, o motorista carioca dirige com a maior precaução. Por vida de pedestres, ciclistas e até outros motoristas em cruzamentos, simplesmente não vale a pena parar.

Retirado do Tumblr Pedestres e Ciclistas

Retirado do Tumblr Pedestres e Ciclistas

Convido agora, o motorista a pensar por um novo ângulo. Imagine que você esteja dirigindo e, de repente, um pedestre corre na sua frente e fica parado. Pois é assim que me sinto quando um carro sobe a calçada com tudo e para bem na passagem. E se o sinal abriu e continuasse a passar vários pedestres atravessando a rua? Jogaria o carro em cima? No mínimo, buzinaria para essa gente folgada se mancar. Eu gostaria de dar uma buzinada e jogar um objeto bem pesado em cima de quem avança sinal, mas não posso. Sou obrigado a esperar as pessoas ocupadíssimas que não podem esperar 3 minutos ganharem a prioridade na marra…

aruaedetodos

E se eu ficasse no meio da pista parado, bem rapidinho, só pra esperar as crianças saírem do colégio? Na fila dupla, tudo bem, mas como pedestre, o direito é outro? Isso seria menos tolerável? E se eu deixasse minha bicicleta parada no meio da estrada? Provavelmente seria amassada, perderia meu veículo. É o que merecia quem estaciona na ciclovia.

Retirado do Tumblr Pedestres e Ciclistas

Retirado do Tumblr Pedestres e Ciclistas

Gostaria, por fim, de citar dois casos patológicos do Rio. A Avenida das Américas (em especial, na altura do Extra/Pão de Açúcar/Downtown) e os arredores da Estrada do Portela, em Madureira. Enquanto na Barra, não há a menor chance do pedestre atravessar a rua de uma vez, tendo que parcelar a viagem em duas ou três viagens (qual o sentido disso?), na outra, os pedestres são obrigados a invadir a rua, já que as calçadas são estreitas e o espaço é disputado “na marra” com os automóveis. Ambos os casos podem ser explicados pela prioridade dada ao carro pela administração pública. Na travessia do eixão do Extra, além do sinal ser curto demais para o pedestre, o caminho não é reto, tendo que fazer, ainda deslocamentos horizontais para acessar a faixa de pedestres das pistas centrais. O tempo é calculado não para o pedestre atravessar – porque, bastava um “especialista” tentar atravessar aquilo uma vez na vida para constatar que é impossível atravessar de uma vez sem correr – mas sim para escoar o trânsito de veículos fazendo o retorno. É simples, quem planejou isso, pensou na necessidade do sinal ficar aberto o mínimo de tempo possível de maneira que não atrapalhe o fluxo principal nem desaponte o fluxo de retorno. Isso mesmo, pensado em priorizar o deslocamento de veículos que chegam facilmente aos 60 km/h, enquanto que um pedestre, com dificuldade chega a 10km/h, é obrigado a esperar duas rodadas completas do semáforo.

Rua Carvalho de Souza, Madureira

Rua Carvalho de Souza, Madureira

Em Madureira, a Rua Carvalho de Souza poderia se transformar em uma rua para pedestres. O deslocamento seria bem melhor, sem o perigo de disputar com carros e ônibus. É uma tendência mundial, “chique”, que deve se espalhar no Centro do Rio (já com a promessa após o Porto Maravilha), deve demorar a chegar ao Subúrbio, para alívio de motoristas reacionários que não saberiam o que fazer da vida tendo que dar uma volta maior (seria, sim, chato para os passageiros de ônibus). Mas, enquanto o futuro não chega, vamos nos espremendo em calçadas cada vez menores (quando fazem o BRT, diminuem a calçada para não perder uma faixa para nossos gloriosos motoristas – sim, isso vai acontecer no Downtown e já aconteceu em Madureira).

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