Como pedalar na rua

Vou expôr aqui minha experiência como ciclista no Rio de Janeiro, deixando as dicas que li e fatos que observei nesses anos. O post ficou um pouco longo, tentei destacar em negrito as coisas mais importantes.

Captura de tela de 2013-07-17 21:25:06

Não lembro exatamente quando deixei de pedalar em lugares próximos de casa e na calçada para entrar nas pistas dos carros (minha primeira grande conquista foi pedalar até a praia, uns 10 km), o começo é difícil mesmo, você não acredita, com o trânsito que vemos todos os dias, que o motorista vai ter algum amor pela sua vida, mas, impressionantemente, a maioria tem (deve ser por isso que tem um teste psicotécnico para tirar a habilitação e aulas de direção defensiva, mas muitos não tiveram isto ou simplesmente não querem lembrar). Um argumento para você acreditar que o motorista vai se esforçar, mesmo que o mínimo, para evitar um atropelamento é que, após um atropelamento, ele vai ter que dar satisfações para a polícia e vai perder tempo, além de se aborrecer, então é mais simples evitar isso. Por isso, é muito importante que o ciclista, quando for derrubado ou atropelado, anote mentalmente a placa do carro pro caso de ele não parar para socorrer, e ligue imediatamente para a polícia e, caso esteja ferido, para os bombeiros. Fazendo isso, além de o motorista ter que dar satisfações, o atropelado tem direito a seguro DPVAT.

1 – Posição na pista

1014151_596849163669941_324591691_n

Créditos da foto: Ciclovias Invisíveis

Minha transição foi da calçada para a rua na contra-mão, eu achava que o certo era estar na mão contrária aos carros, parece ser mais seguro quando você vê o que os alucinados estão fazendo, ao contrário de ir na mesma mão. Então, li na internet algumas páginas que juravam que o mais seguro é ir na direção dos carros, além disso, é o correto pelo Código de Trânsito Brasileiro (artigo 58). Parece difícil, mas, você tem que confiar que o carro não vai avançar sobre você se você estiver na mesma mão. Vale lembrar que, na faixa da direita, estão os veículos mais lentos e, na esquerda, os mais rápidos, então, passando pela contra-mão, você terá os veículos mais rápidos ao seu lado. Então, é, de fato, mais seguro ir pela direita, na mão dos carros. Porém, é importante ter retrovisores que reflitam o suficiente (certamente não são os que vêm juto com a bicicleta, no ato da compra).

Um parênteses sobre o CTB. A bicicleta é veículo de propulsão humana (anexo I do CTB: “BICICLETA – veículo de propulsão humana, dotado de duas rodas, não sendo, para efeito deste Código, similar à motocicleta, motoneta e ciclomotor.”) e , segundo o código no artigo 58, deve se locomover à direita da pista, junto ao bordo ou acostamento.

 Art. 58. Nas vias urbanas e nas rurais de pista dupla, a circulação de bicicletas deverá ocorrer, quando não houver ciclovia, ciclofaixa, ou acostamento, ou quando não for possível a utilização destes, nos bordos da pista de rolamento, no mesmo sentido de circulação regulamentado para a via, com preferência sobre os veículos automotores.

2 – Ocupar a faixa?

ultrapassagem

A maioria das páginas especializadas recomendam ocupar a faixa, ou pelo menos 1/3 dela. Ainda não peguei esse costume e não me sinto à vontade de ocupar uma faixa com um trânsito carregado com vias em sua maioria de uma ou duas faixas. Eu faço o seguinte: em vias de três faixas, me mantenho em 1/3 (cuidado nas curvas, os motoristas costumam jogar muito para dentro nas curvas), eventualmente jogo mais para a direita se vir alguém pelo retrovisor. Se você não tem retrovisor, esqueça isso de ocupar a faixa, mantenha-se sempre a um palmo da faixa contínua da direita. Mas se tiver, ocupe com folga e ceda o lugar: num mundo ideal, o carro que deveria te ultrapassar, mas prefiro deixar um pouco para a direita e o carro me ultrapassa usando meia faixa de distância. Só recebi buzinas duas vezes ocupando a faixa nessa maneira, na primeira não dei passagem (o cara teve que mudar de faixa) e na segunda, terminei de fazer a curva para dar a passagem, a mulher no carro me ultrapassou se esperneando lá dentro do carro, eu apenas fiz joínha pra ela. De resto, ou recebi pedido de passagem com farol piscando ou buzinadas de alerta, nada agressivo.

Em alguns pontos, prefiro estar no asfalto que na ciclovia, que, não bastassem os problemas de carro estacionado e pedestre que fica exatamente na ciclovia (ciclovia não é passarela), às vezes tem o piso muito ruim, fica trepidando muito, e com degraus. E você acaba ficando cheio de dor nos braços por causa dessa trepidação. Voltando ao artigo 58, minha interpretação é “se tem ciclovia, o ciclista deve ir por ela, senão, pode ir pela pista”. Bom, se for mesmo esse sentido, confesso que prefiro ficar fora da lei e acabo dando argumento para o motorista que reclama que o ciclista tem que sair da rua, nesse caso sim, pois tem ciclovia, mas tem motorista que acha que o ciclista deve ir pela calçada, o que está errado (Art. 255. Conduzir bicicleta em passeios onde não seja permitida a circulação desta, ou de forma agressiva. Infração – média; Medida administrativa – remoção da bicicleta, mediante recibo para o pagamento da multa). Mas é um problema de nível totalmente fora do nosso alcance: construção de ciclovias fictícias com material inadequado, por atitude de autoridades políticas. Só nos resta priorizar o bom senso em relação à lei. Não encontrei qualquer menção de infração para aqueles que preferirem o asfalto à ciclovia.

3 – Bifurcações

bifurcacoes

É necessário muita atenção, pois é uma das principais fontes de acidentes com ciclistas, e mesmo motociclistas, muitas vezes causadas pela falta da cultura de ligar a seta, que é tão cobrada na prova da CNH e parece que o pessoal faz questão de esquecer depois.

184859_343086782456530_1762576986_n

Então, não vamos contar com a educação alheia e estejamos atentos. Se não tem intimidade com as ruas, ou não conhece o fluxo do lugar, o melhor a fazer é parar na esquina e esperar uma brecha. Se não quiser parar, é importante ter o retrovisor e acompanhar o carro logo atrás, se estiver com a seta ligada para a direita, tudo bem, é só se precaver (deixe-o passar, novamente, a preferência é do ciclista mas, paciência…), se não ligar, não podemos afirmar nada, então gesticule a direção que quer tomar com o braço e fique de olho no retrovisor.

cruzar

Outra opção que eu faço é atravessar antes para o bordo esquerdo (se houver canteiro central) e voltar à direita em um sinal ou esperar “já atravessado” para retornar.

cruzar2

Sobre o uso da lateral esquerda da pista, o nosso artigo 58 não discrimina se o bordo deve ser direito ou esquerdo, portanto, está tudo bem, desde que tenha um canteiro central. Só pego o meio raramente em ruas de uma pista só, ir pela esquerda pode ser perigoso pela passagem de motos e pela maior velocidade dos carros, inclusive realizando outras ultrapassagens.

4 – Passar no meio dos carros

bike-traffic-london-001

Pelo artigo 211 (Ultrapassar veículos em fila, parados em razão de sinal luminoso, cancela, bloqueio viário parcial ou qualquer outro obstáculo, com exceção dos veículos não motorizados: Infração Grave), é permitido, sim, ultrapassar os carros em fila. Mas muito cuidado, principalmente com pedestres atravessando fora da faixa e com motos e, principalmente, com motoristas “profissionais”. Já cheguei a bater com um taxista que não me deu a passagem quando o sinal abriu para que eu voltasse à direita e um motorista de van já fechou o corredor na hora em que eu ia passar (do tipo, deu uma chegada pro lado e deixou a van toda torta, creio eu, pra que eu não passasse). Bizarrices à parte, acho melhor evitar. Só se for o caso de engarrafamento mesmo. No sinal vermelho, é melhor tentar se espremer entre o meio fio e os carros, muito provavelmente ônibus (em algumas vias, a pista realmente é pequena, sobrando pouco espaço para “se espremer”) do que tentar ir pelo meio, o sinal abrir e depender da gentileza. Às vezes, a gentileza até atrapalha,uma vez me aconteceu isso, o ônibus então seguiu lento para que eu fosse para a direita, mas preferia que ele passasse para que eu pudesse pegar seu vácuo. Nessas situações, sempre agradeça, mesmo que o cara não faça nada pra te ajudar a encostar. Pode ser que ajudando “sem querer”, o agradecimento chame a atenção do motorista para esse tipo de manobra. E passar pelo corredor geralmente só vale à pena se houver avanço de sinal, o que nos leva à próxima questão.

5 – Sinais, posso avançar?

Captura de tela de 2013-07-18 18:27:45

Não, seria a resposta rígida. Mas eu acho que tem que ter um pouco de bom senso. Quando não tem cruzamento, só sinal para pedestre, eu costumo diminuir e parar, se algum pedestre aparecer, senão, continuar. Se tiver em cruzamento, parar quase em cima da faixa, para ser bem visto pelos carros da frente. O sinal vermelho é uma oportunidade ótima de se livrar de carros te espremendo, então é melhor avançar, diminuindo e respeitando o pedestre. Parece abuso, mas é mais seguro e eficiente, em Paris mesmo, foi liberado o sinal vermelho para ciclistas.

6 – Calçadas

Calçada não é lugar de andar de bicicleta, ponto final. Se for inevitável, desmonte ou ande bem devagar. O mesmo vale para passarelas

empurre

7 – Capacete

Eu não uso capacete. E de todas as minhas quedas, nenhuma eu bati com a cabeça. Capacetes são caros e, se você tiver um dinheiro sobrando, compre. O CTB não obriga o uso de capacete, mas sim de retrovisores, buzina e olhos de gato  (artigo 105, item VI: São equipamentos obrigatórios dos veículos, entre outros a serem estabelecidos pelo CONTRAN: para as bicicletas, a campainha, sinalização noturna dianteira, traseira, lateral e nos pedais, e espelho retrovisor do lado esquerdo), que são obrigados a virem junto com a bicicleta, na compra. Entretanto, a buzina e o retrovisor que vêm com a bicicleta geralmente são inúteis, é melhor comprar esses itens  em lojas especializadas.

camisa-ciclista-ventus-free-force-frete-gratis_MLB-F-4329283313_052013

Outro item que só vejo com profissionais são essas camisas coladas, que ajudam na resistência do ar. Para uma opção mais em conta, use camisetas de cores vivas, como vermelho ou abóbora, para se tornar bem visível no trânsito. Um artigo interessante são aqueles coletes refletivos que agentes de trânsito usam, encontrados em lojas de equipamentos de segurança pessoal. Tenho intenção de comprar um, não deve ser caro. São importantes principalmente à noite, quando as bicicletas se tornam praticamente invisíveis. Para quem quiser investir na noite mesmo, outro item legal são os dínamos, para gerar energia a partir dos pneus e alimentar lanternas de LED que, alternativamente, podem ser movidas a pilha mesmo.

lanterna-led-luz-traseira-bike-bicicleta-alta-eficincia_MLB-O-235160111_4641

Mas o mais legal mesmo é o indicador de 1,5 m de distância (artigo 201 do CTB):

xfire-laser-lane

Em resumo, seja visível no trânsito. Não seja uma surpresa para o motorista. As buzinas são importantes para alertar os outros de sua passagem, quando você se sentir ameaçado, principalmente perante aberturas de portas de carro (eu já levei portada à pé, de bicicleta, já dei freadão) e pedir licença.

8 – Ultrapassagens e Gentileza

Em ciclovias compartilhadas, a preferência é do pedestre. Conviva com isso… Mas você pode ser gentil, pedindo licença com a buzina, ou esperar o pedestre abrir um espaço. Entretanto, tem muito pedestre mal educado que simplesmente não abre espaço, mesmo vendo o ciclista. De toda forma, sempre agradeça. Além disso, tem os pedestres que ficam na ciclovia quando tem um monte de calçada. Em alguns casos, é falta de sinalização (o chão vermelho pode não ser o suficiente para indicar a passagem de bicicletas), mas, na maioria das vezes, é simplesmente falta de educação.

passagem subterrânea ciclovia barra

luz na passarela

Uma buzinadinha, só pra ver se a pessoa se manca, é uma boa às vezes. Agora, com relação à ultrapassagem ciclista x ciclista, não seja um babaca. Tem muito ciclista que passa voado do seu lado, a forma como se faz isso faz diferença entre parecer um cidadão ou um estressado. Uma coisa curiosa de caminhadas em trilhas e em ciclismo é a gentileza entre quem está enfrentando o caminho. Bom dia e boa tarde entre gente que nunca se viu mostram como esses ambientes são mais “família”. Um compreende a dificuldade do outro.

Sobre a educação com motoristas “nervosos”, eu já xinguei, já respondi, já bati boca, mas acho que o deboche é a melhor arma. Já berrei para um cara, estacionado no meio da rua sem alerta nem nada “ô dono da rua”, o cara me perseguiu e ficou na minha velocidade batendo boca comigo, o que prova que realmente tem gente só esperando uma confusão. Hoje em dia, costumo fazer o jóia.

joinha

Quando forem ônibus te fechando, ligue para reclamar. Não fique com medo de rirem da tua cara no telefone, não vão rir (na sua frente), pode não dar em nada, mas se muita gente reclamar, a voz é ouvida. No Rio, o telefone para reclamar é o 1746 e no Grande Rio, 0800 886 1000. Recentemente, a atenção da mídia sobre ciclistas aumentou muito, após um acidente com um profissional. Recentemente, um motorista chamou a ciclista de drogada. Foi demitido. Pelo menos nas áreas mais elitizadas, a importância do ciclista vêm aumentando. Uma pena que ainda demore para chegar ao subúrbio.

9 –  Minhas quedas

Já caí duas vezes por causa da poeirinha no canto da rua. Acho que isso foi combinado com pneu careca e/ou freios ruins. Uma das vezes, ralei o ombro inteiro, mas o capacete não fez falta (deveria usar uma ombreira?). Depois que troquei de bicicleta, não caí mais. Mas fui atropelado duas vezes, talvez por conseqüência de estar mais inserido no trânsito. A primeira, fui pegar o corredor pois o trânsito estava travado por algum carro lá na frente e surgiu um carro, na sua mão, provavelmente subiu em alguma calçada ou coisa assim, pois veio muito de repente, e me arrebentou com o retrovisor. O cara parecia estar alcoolizado, não me levou no hospital e me arrependo de ter ido embora sem ter ligado pra polícia. Da segunda vez, foi na entrada de um estacionamento, joguei na frente do carro achando que ia dar a vez, mas não deu (não deve ter me visto, ou simplesmente estava com muita pressa de entrar no estacionamento), desviei e batemos de lado. Fiquei inteiro, assim como minha bicicleta. O carro da moça, porém, ficou amassado.

Já fui atropelado a pé por uma bicicleta numa ciclovia perto da PUC, ela veio em alta velocidade numa ciclovia que era em frente a um ponto de ônibus, fui abrir espaço, ela foi para a mesma direção que eu e batemos. Ela saiu me xingando. E já esbarrei em um garoto, que estava de mãos dadas com a mãe, eles saíram de trás de um carro, atravessando fora da faixa, eu estava na contramão. Clássico dos acidentes, onde os dois estão errados.

10 – Algumas páginas consultadas:

CTB: http://www.denatran.gov.br/ctb.htm / http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/l9503compilado.htm

http://portaldotransito.com.br/blog/post/bicicletas-devem-circular-pela-direita-da-pista-quem-disse

http://vadebike.org/2004/08/o-que-o-codigo-de/

http://vadebike.org/2012/08/bicicletas-ciclistas-trafegarem-corredor-entre-os-carros/

http://issuu.com/diegocanales/docs/bem_vindo_ao_mundo_da_bicicleta_iss/1?e=4326458/3029434

http://www.escoladebicicleta.com.br/dicasSINAL.html

http://bikeanjo.com.br/dicas/

http://oglobo.globo.com/blogs/debike/posts/2012/02/09/ciclistas-parisienses-agora-podem-avancar-sinal-vermelho-430803.asp

Veja também:

Onde parar sua bike (RJ)

Advertisements

One thought on “Como pedalar na rua

Leave a Reply

Fill in your details below or click an icon to log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out / Change )

Twitter picture

You are commenting using your Twitter account. Log Out / Change )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out / Change )

Google+ photo

You are commenting using your Google+ account. Log Out / Change )

Connecting to %s