Sobre os 20 centavos

É louvável o comportamento do povo nas últimas semanas com relação ao pedido de melhoria nos serviços públicos, aproveitando a visibilidade permitida pela Copa das Confederações, sendo motivado, como estopim, pelo aumento das passagens, que já havia sido adiado, mas, como os manifestantes gostam de frisar, não são só os 20 centavos. Os 20 centavos foram a energia de ativação necessária para que as pessoas se entusiasmassem para sair da reclamação de facebook para a reclamação nas ruas, e pedir melhor saúde, melhor educação e movimentação no poder legislativo para que ele possa nos proteger deles mesmos. Além, claro, da melhoria no transporte público.

O movimento que começou os protestos – que, atualmente, já não têm mais relação com o movimento, pois criaram vontade própria – chama-se Passe Livre e, não só a diminuição das passagens, sua filosofia é de que a passagem seja zero. Há alguns problemas, porém, na passagem zero. Em primeiro lugar, a preocupação de quem paga a passagem se torna menor à medida em que o serviço é “gratuito”, assim, entre aspas, porque, obviamente, o custo seria (e é, hoje em dia, mas somente parcialmente) pago pelo próprio povo, usuário ou não do transporte público, na forma de impostos que são distrbuídos de forma pouco clara. E esse é o segundo ponto, a transparência. Quando a cobrança da passagem vira uma caixa preta, em que um governante envia dinheiro para uma empresa pública de gestão de transportes que, por sua vez, paga a camadas menores, a possibilidade de desvio de dinheiro é maior ainda. Não é um questão que não exista mutretas atualmente, certamente existem, a começar pela óbvia formação de cartel na formação dos 4 consórcios de gestão dos ônibus da cidade do Rio, fora  que já existem subsídios e a conta da divisão . Mas, somando o fato da despreocupação do passageiro em saber se o valor que realmente paga pela passagem aumentou ou não, pois, no seu dia-a-dia, está pegando transporte gratuito, com o fato de que não sabe como os impostos estão sendo aplicados na melhoria do transporte, da saúde ou do auxílio-gasolina das esferas de poder, a tendência é um abandono do transporte, tanto pelo poder – que, até hoje, nos mostra não ter muito interesse em melhorar – como pelo usuário, que acaba por seguir a mesma filosofia que imagino afetar muitos brasileiros usuários de serviços públicos: “se o serviço é de graça, não dá para exigir muito”, o que é uma grande falácia, já que o serviço não é de graça.

Meu ponto é, quando você paga por algum serviço, é possível que fique mais atento vendo seu dinheiro ali, sendo consumido, e passe a ficar em cima para que o serviço seja bem prestado. Um exemplo foi a telefonia que, após ser privatizada, teve uma avanço significativo até os dias de hoje e, hoje em dia, a cobrança em cima das empresas de telefonia é altíssima, sendo ocupando facilmente os primeiros lugares de reclamações no Procon. Ou seja, a partir do momento em que o cidadão paga diretamente pelo serviço, o serviço melhora e é solicitado cada vez mais. Já para o caso dos aeroportos, há uma expectativa de que sejam privatizados, mas, sendo um serviço de concessão, não há uma cobrança tão imediata.

Já está em estudo e deve ser votado bem em breve o projeto de passe livre para todos os estudantes. Considerando que o movimento é composto, em sua maioria de estudantes, acredito que isso seja uma medida mais para tentar acalmar e não acabarem, no protesto pelas passagens, conseguindo trazer à tona mais problemas que são empurrados com a barriga, possivelmente à base de muitos esquemas.  E isso só reforçaria minha crença de que o Passe Livre não deve existir, mas sim, transparência, divisão justa dos custos e um serviço prestado com conforto, segurança e agilidade. Transporte por ônibus não deve ser tratado como a solução para os problemas: ônibus deviam ser luxos, onde todos ficam sentados, chegando em ruas menores e tendo horários fixos. E metro não deveria ser tratado como luxo, presente em bairros ricos (e vale lembrar que há bairros ricos que ainda não possuem metrô, como Leblon, que receberá com a linha 4, e Barra, que continuará sem, exceto por um pequeno trecho, o Jardim Oceânico) e deve ser usado para o transporte de grandes massas.  Não é que eu ache o metrô atualmente vazio, mas ele é tratado como um luxo… E, mesmo sendo tratado como um privilégio, é um privilégio comparativo, pois, entre o ônibus, que está parado no engarrafamento e o trem que quebra, o metrô pelo menos flui (os três modais são lotados em horário de pico).

Não é uma questão de privatizar ou não os serviços. O que defendo é que sejam devidamente esclarecidos onde impostos estão sendo gastos para quais serviços. E que seja claro, também, como é a divisão do custo do transporte que deve sim, ter um preço, ao contrário do que defende o Movimento Passe Livre, afinal, nunca teríamos saído do sofá se não fossem os 20 centavos.

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